Ecocardiograma fetal prevê doenças cardíacas no bebê

Uma cirurgia cardíaca causa receio em qualquer pessoa. Imagine quando se trata de um bebê. Mas esta pode ser a diferença entre a vida e a morte de um recém-nascido, se ele nascer com um dos mais de 50 tipos de malformações de cardiopatia congênita, cujo diagnóstico pode ser feito por meio de um simples ultrassom fetal.

A doença afeta a vida de 130 milhões de crianças em todo o mundo. Sua incidência chega a ser oito vezes maior que a Síndrome de Down e afeta muito a vida destes portadores. Dentre os sinais mais frequentes da cardiopatia estão a cianose, o sopro e a dispneia. Contudo, quando descoberta em tempo e tratada, cirúrgica ou clinicamente, o êxito chega a ser de 90% de sobrevida.

O cirurgião cardiovascular pediátrico Ulisses Alexandre Croti, chefe do Serviço de Cardiologia e Cirurgia Cardiovascular Pediátrica do Hospital da Criança/Base, de Rio Preto, há 12 anos corrigiu o primeiro coração infantil na cidade. De lá para cá, já foram mais de 3,2 mil crianças cardíacas operadas.

“Das crianças que nascem com cardiopatia, cerca de 70 a 80% delas vão precisar de uma cirurgia, que tanto pode ser a céu aberto quanto por cateterismo ou hemodinâmica, e vai depender de cada caso”, diz Croti. Um exemplo de sucesso são os irmãos Nickolas, 10 anos, e Fernanda Rocha da Silva Pinto, de 12, acompanhados no Hospital de Base de Rio Preto desde bebês, e que hoje estão vivos graças a cirurgias cardíacas feitas logo cedo para corrigir uma cardiopatia denominada “Tetralogia de Fallot”.

“Felizmente, o pediatra dela já identificou na primeira consulta que ela tinha um sopro e me orientou a acompanhar aqui em Rio Preto. Me disse para ficar atenta se ela ficasse roxa, se tivesse falta de ar, e embora ela não tivesse, era acompanhada. Mas logo depois tive o Nickolas e percebi que era roxinho e chorava demais, então já trouxe ambos para tratar aqui.

Graças a Deus eles têm uma vida normal como qualquer outra criança”, comemora a mãe, Iraci Rocha da Silva.

Identificação precoce

Além da dificuldade de acesso a centros especializados nesta cirurgia, muitos portadores sofrem com o desconhecimento da doença, e o atendimento precoce é um fator crucial para o sucesso do tratamento da criança.

Os cirurgiões cardíacos pediátricos Gláucio e Beatriz Furlanetto (Instituto Furlanetto), pioneiros em cirurgia cardíaca infantil, do Instituto Furlanetto, acabam de criar um espaço específico para este tipo de atendimento, em São Paulo. Eles concordam que a falta de diagnóstico precoce e adequado, além de centros médicos regionais aptos ao atendimento do cardiopata e de profissionais capacitados de forma íntegra, contribuem para o aumento destas estatísticas.

Também no intuito de reduzir este problema, a Associação de Assistência à Criança Cardiopata Pequenos Corações (AACC) conseguiu que fosse aprovada a Lei 1080/2011 em São Paulo (já é aprovada em oito estados), que torna obrigatório o Teste do Coraçãozinho em recém-nascidos.

Segundo a entidade, dos cerca de 23 mil bebês com a doença, 80% necessitam da cirurgia, mas cerca de 13 mil sequer recebem o tratamento adequado. “Seja por falta de orientação dos pais, ausência de diagnóstico, falta de infraestrutura hospitalar ou por omissão do poder público”, afirma a presidente da entidade.

Além disso, o cardiologista Ulisses Croti recomenda que as futuras mamães solicitem ao seu médico a realização do exame de ecocardiograma durante a gestação entre a 22ª e a 28ª semana de gestação. “Esta é uma conduta de rotina nos Estados Unidos e na Europa, ao passo que aqui ainda tem médico que não pede o exame na gestação toda”, afirma.

O cardiologista Sírio Rassem, especialista em cardiopatias, do Instituto do Coração de Rio Preto, explica que além dos tratamentos cirúrgicos é possível, em alguns casos, fazer uso de drogas que inibam a prostaglandina. Estas drogas são utilizadas na persistência do canal arterial do prematuro. “São raros os serviços no Brasil que realizam cirurgia intraútero de valvoplastia aórtica ou pulmonar. Porém, é possível tratar arritmia fetal com facilidade nos serviços de cardiologia pediátrica”, diz.

Teste do coraçãozinho

É feito a oximetria de pulso, um exame indolor, utilizado para medir os níveis de oxigênio no sangue. Sendo detectada a alteração, a investigação de problema cardiológico é então aprofundada. Neste exame, os recém-nascidos passam por análise de saturação do oxigênio no sangue e, se daí for detectado oxigênio abaixo de 95%, é realizado um ecocardiograma para investigar a existência de cardiopatia congênita

Vírus se ‘camufla’

Um outro agravante para as cardiopatias é o Vírus Sincicial Respiratório “VSR”, que costuma se apresentar com sintomas de um resfriado forte. Daí o alerta dos médicos para a importância de se vacinar os bebês o quanto antes. Trata-se de um vírus sazonal, que em geral circula nas estações de outono e inverno. E segundo o pediatra Renato Kfouri, da Sbim, Associação Brasileira de Imunizações, é a maior causa de infecção respiratória na infância.

Ele explica que também pode acometer idosos, além de crianças sadias. Mas é nos bebês prematuros – nascidos abaixo de 29 semanas de gestação – e nos bebês com cardiopatia congênita ou broncodisplasia pulmonar que o vírus pode ser fatal. “Entre prematuros, alguns pesquisadores estimam que a taxa de mortalidade em decorrência do VSR, é de cerca de 5%”, afirma.

Saiba mais:

:: Uma em cada 100 crianças nascidas vivas apresentam cardiopatia congênita, que por sua vez são as doenças congênitas mais prevalentes

:: Não há uma causa específica para que elas ocorram, mas dentre as mais comuns estão rubéola na gravidez, diabetes mellitus, idade materna, uso de alguns tipos de remédios na gestação, pais ou irmãos com cardiopatia congênita

:: São mais de 50 tipos de malformações de cardiopatia congênita. E dentre as mais frequentes estão a comunicação interventricular, comunicação interatrial, persistência do canal arterial e estenoses valvares

Fonte: Sírio Hassem, cardiologista do Incor

Gestação cuidadosa

A cardiologista Maria Virginia C.A.R. Cury, do Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC), de Rio Preto, explica que todas as gestantes devem realizar uma avaliação cardiológica. “Embora não seja comum, em alguns casos a gestação pode precipitar alguma doença cardíaca”, diz. E identificada de forma precoce, tanto a mãe quanto a criança podem receber o tratamento adequado. Em se tratando de gestação de risco, o acompanhamento se torna imprescindível.

Para a médica, o ideal é que sejam realizados alguns exames básicos a fim de evitar surpresas desagradáveis. Os exames são: eletrocardiograma, ecocardiograma, holter, mapa (monitorização arterial da pressão arterial) e outros, de acordo com a patologia encontrada. “Eles vão ajudar na detecção de doenças tratáveis, além de ser importantes para o acompanhamento de gravidez de risco, no caso das hipertensas, por exemplo”, diz.

>> Ouça aqui podcast da entrevista com o médico Ulisses Croti

Em entrevista ao Diário da Região, a cirurgiã cardíaca pediátrica Beatriz Furlanetto, que há mais de 30 anos, fundou o Instituto Furlanetto, explica um pouco mais sobre o assunto, acompanhe.

Diário – O que leva a criança a nascer com alguma cardiopatia? É prevenível?
Beatriz Furlanetto – Os principais fatores são: exposição durante a gestação a medicamentos teratogenicos e radiação, uso de drogas, alterações genéticas, diabetes gestacional, lúpus e doenças contagiosas adquiridas durante a gestação (toxoplasmose, rubéola). Apenas 15% das mal-formações cardíacas tem sua causa determinada. Em 85% dos casos não se identifica o motivo. Dessa maneira, em 85% das situações não há medidas preventivas. A não exposição a possíveis agressores, como estes mencionados acima (exames radiológicos, medicamentos como Talidomina) e contato com pessoas com infecções com potencial de lesão ao feto, como rubéola, são naturalmente, medidas preventivas.

Diário – Quais são as cardiopatias mais frequentes?
Beatriz – A CIV, ou Comunicação Interventricular, ocorre quando existe um orifício ou “buraquinho” entre as duas câmeras do coração chamadas de ventrículos (esquerdo e direito), esta é a má-formação congênita mais freqüente, representam de 25 % a 30% das cardiopatias. Atualmente algumas maternidades estão adotando o teste do coraçãozinho. É uma forma de avaliação do recém-nascido através da saturação de oxigêncio que auxilia na suspeição da exigência de uma cardiopatia congênita que deverá ser investigada.

Diário – As cirurgias intra-utero já são uma realidade no Brasil?
Beatriz – Atualmente, o tratamento cirúrgico intra-uterino vem sendo eficientemente aplicado para lesões obstrutivas do trato urinário e malformações da medula espinhal. Para malformações cardíacas alguns procedimentos já foram realizados com alguns resultados positivos. A área é promissora e necessita de mais experiência para ser considerada uma forma de tratamento para cardiopatias congênitas.

Diário – Quais os tratamentos mais comuns realizados hoje para as cardiopatias?
Beatriz – A melhor prevenção é a divulgação das possíveis causas. Os tratamentos hoje são as cirurgias, os tratamentos intervencionistas e os medicamentosos.

Diário – Que tipo de contribuição as células tronco têm trazido para o tratamento da doença?
Beatriz – As células tronco do sangue do cordão umbilical podem se tornar a fonte preferencial de material para terapias futuras mediadas por células tronco pluripotentes induzidas (iPS), uma vez que elas são mais jovens e acumulam menos mutações do que aquelas isoladas de adultos. Muitos experimentos tem sido realizados com o objetivo de entender as múltiplas possibilidades de sua utilização.

Diário – Quem pode se beneficiar dos serviços do Instituto? Tem cobertura do SUS e convênios?
Beatriz – O Instituto atende pacientes do SUS assim como convênios. A proporção era de 80 e 20% respectivamente, no entanto, o atendimento para pacientes do SUS está bastante limitado pelos poucos locais existentes para cirurgias em todo o País. Desta forma, o Instituto tem se empenhado para que mais pacientes possam chegar a ter a possibilidade de ser operado. Nosso lema é que “Toda criança nascida, em qualquer lugar do mundo, com um defeito congênito cardíaco, tem direito a ter acesso a tratamento médico e cirúrgico apropriado”.

Fonte: FM Diário

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