Uma complexa e rara cirurgia de transplante de coração em um bebê mobiliza equipes médicas e uma grande estrutura de logística em São Paulo. Arthur, que hoje tem um ano de idade, recebeu um novo coração quando tinha apenas nove meses, em um procedimento de altíssima delicadeza realizado no hospital Beneficência Portuguesa.
O menino, que teve uma falência irreversível do órgão causada por um vírus, se recupera bem e já comemorou seu primeiro aniversário em casa com a família.
A jornada de Arthur começou poucas semanas após seu nascimento, quando um vírus atacou seu coração. Internado por 161 dias, ele foi mantido vivo com o auxílio de um coração artificial enquanto aguardava na fila por um doador. A espera, que poderia levar até um ano, durou apenas 19 dias. “Isso é um milagre, não tem outra resposta. A própria equipe, ninguém acreditava”, relata a mãe de Arthur, a fotógrafa Amanda Cibele.
A cardiologista pediátrica Carolina Campos explica a raridade do caso. “Existe uma espera muito longa, em especial para as crianças abaixo de 10 kg. Por isso que o transplante do Arthur é algo tão simbólico para a gente que cuida da criança com insuficiência cardíaca avançada”, afirma a médica. Em todo o ano de 2023, apenas nove transplantes cardíacos foram realizados no Brasil em bebês com menos de um ano.
O coração doado veio de um bebê da mesma idade, do Rio de Janeiro. Uma verdadeira força-tarefa foi montada para o transporte do órgão, que pesava apenas 35 gramas. A operação envolveu um jatinho, um helicóptero e uma ambulância para garantir que o coração chegasse a São Paulo em menos de quatro horas.
Na sala de cirurgia, a equipe liderada pela cirurgiã Beatriz Furlanetto enfrentou um desafio monumental. Arthur pesava apenas 7 kg, e o novo coração, com suas 35 gramas, exigiu o uso de instrumentos cirúrgicos especiais e uma lupa de aumento para garantir a precisão dos movimentos.
Beatriz Furlanetto descreve a emoção no momento decisivo do procedimento. “É muito lindo, porque aquela expectativa ‘vai dar certo, vai bater, vai bater de uma forma adequada’ gera uma expectativa muito grande no grupo. Fica todo mundo lá, para de respirar e fala: ‘Foi, foi, tá batendo, tá bem’. Do Arthur correu tudo bem”, relembra a cirurgiã.
Após o sucesso da cirurgia e a recuperação, Arthur pôde ir para casa. A família celebra a nova vida do menino e reforça a importância da doação de órgãos. “É muito importante a gente falar e principalmente mostrar o resultado. Uma pessoa salvou a vida do Arthur. Se não fosse a doação de órgãos, como seria?”, diz a mãe, Amanda.